O teu cabelo não nega!

(E nunca mais há de negar…)

Embelezamento: ação milenar ligada à vontade de se livrar da morte, de rejuvenescer; artimanha para se sentir mais amado; técnica para se sentir mais limpo, digno e adequado. Passando por diversas ressignificações, o ato de se embelezar, a partir do século XX, assume posição de item de primeira necessidade.
Afinal, Beleza é um direito ou um dever? É supérfluo ou essencial? Deve vir de fora (regras sociais, modas) ou deve ser sentida de dentro para fora? Não se trata de questionamentos simples, e um exemplo disso é o cabelo cacheado, sua atual valorização nas mídias e, principalmente, sua crescente presença nas ruas.
Foi-se o tempo em que cabelo cacheado definia uma única categoria de cabelo. Agora a gente investiga se o cacho é em S ou espiral, se tem formato arredondado ou nem tanto…. E o fio? De espessura mais grossa, mais fina? Cacho não é tudo igual.
Conquistamos com as cacheadas o direito de ter nas prateleiras, à disposição, o acesso a produtos menos agressivos a preços mais amigáveis. A crescente redescoberta da identidade como cacheada – deixando bem claro que não se trata simplesmente de estilo – fez com que a indústria se reorganizasse, o que não é pouco.
Do status de marginal (exótico, “minoria”), emerge como dominante. Podemos ir mais longe, pensando a negritude dos cachos da brasileira junto à cultura do samba, da capoeira, do Candomblé, num passado ainda muito recente, condutas criminalizadas. Quantas vezes não ouvimos que o liso é mais chique? Quantas empresas ainda oprimem suas funcionárias por conta do que é ou não apresentável aos clientes? Soltar a cabeleira e assumir esta identidade é uma atitude também política.
Os cabelos resgatam a história africana que nos foi amputada, seja pela raspagem dos cabelos dos negros, seja pela obrigação de usar turbantes, imposta às escravas. Há quem diga que seria uma questão de higiene, no entanto sabemos que servia como meio de dominação e aculturação. Quem conhece um pouquinho que seja sobre cultura africana sabe que os seus penteados extrapolam muito questões estéticas, representam etnia, marcam posição dentro do grupo, cargo, estado civil etc.
Não se trata de uma nova ditadura, a do “ser ao natural”: continua podendo alisar ou relaxar, afinal cada uma sabe (ou deveria saber) como se sente bem. É sobre poder eleger o que bem entender, é sobre ter no penteado liso apenas mais uma entre tantas possibilidades. É sobre a conquista de ter sua identidade legitimada e reconhecida. É sobre reconhecer-se bela e poderosa.
Fiquei babando neste evento aqui, que vai acontecer em Porto Alegre no dia 13 de outubro.
Para quem gostaria de aprofundar a discussão, indico:
História da Beleza no Brasil, de Denise Bernuzzi de Sant’Anna
Livro do Cabelo, de Leusa Araújo
O Livro dos Cachos, de Sabrina Giampá

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