Dez minutos de vaidade, por favor

Vivemos os tempos do “Não sou obrigada!”. Como nunca antes, estamos rompendo com padrões fixos e deixando desabrochar as nossas belezas do jeito que são. E não tem outro jeito, senão se valorizar mesmo: precisamos criar nossos próprios espaços, seja em relação ao trabalho ou aos nossos relacionamentos familiares e afetivos. Sabemos que isso exige muito da nossa energia, pois vivemos numa sociedade ainda impregnada de valores machistas. Construir nosso próprio espaço significa, na maior parte das vezes, trabalhar triplamente, fazer tudo sozinhas, como se precisássemos provar algo a alguém o tempo todo. E o tempo que dedicamos a nós mesmas?
Tenho trabalhado com treinamentos em automaquiagem com o objetivo de também desconstruir o significado do ato de se pintar. Sabemos de nossos ancestrais que “índio quando se pinta é porque vai à guerra”. E não só guerra: em costumes tribais, sempre foi comum se pintar para caçar e se camuflar na mata, para louvar aos deuses, para dançar e comemorar. Quando pensamos nisso, deixamos de lado conceitos deturpados, como maquiagem que dissimula, que cria falsa aparência, que precisa nos camuflar para que estejamos protegidas de algum mal ou perigo. Gatas, não há maior escudo que o amor próprio!
Trabalhar com ensino de automaquiagem, com mulheres que têm belezas reais, tem me mostrado que a autovalorização é também uma questão de estudo, de treino do olhar em relação a nós mesmas, nossas trajetórias, nossas origens, o que somos e o que podemos nos tornar. Quantas mulheres simplesmente não sabem que podem ser bonitas com aquilo que a natureza lhes trouxe? E bonitas pelas próprias mãos! É gratificante e poderoso demais ouvi-las dizer para o espelho: “Estou lindaaaaa!”.
E por que tudo isso nos ajuda? Porque estar bem é um processo, não um fim. A vida é dinâmica, exigindo que sejamos flexíveis, que estejamos dispostas a aprender e a sempre enfrentar o que surge. Se estamos satisfeitas, se nos sentimos bem e plenamente capazes, tudo parece mais tranquilo. Quando nos cuidamos, reservamos um tempo para nós mesmas, nem que sejam apenas dez minutos de vaidade pela manhã (por favor!) para ajeitar a pele, passar um lápis-rímel-e-batom! Sentir-se segura e vitaminada sem nada disso, pode também? Com certeza, afinal, empoderamento é isso, é não se sentir obrigada a nada. Empoderamento é a chance de se autodescobrir, é a fuga da anulação, com ou sem maquiagem. É o constante questionamento: “Eu quero? Eu posso? Eu devo? Eu preciso?”.
Texto publicado originalmente no boletim da Asplande / DEZ 2016.

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