Precisamos de entendimento.

Hoje é Dia Internacional da Mulher – dia em que carinhos são trocados entre nós, mensagens de incentivo e otimismo e, diga-se de passagem, também cheias de estereótipos; dia de ver muito clichê e hipocrisia; dia de ler relatos que fazem denúncia no facebook, em que mulheres corajosamente se expõem na tentativa de ajudarem outras ou de simplesmente tirarem de dentro de si situações que exemplificam o quanto ainda é difícil ser mulher. Venho hoje refletir um pouco, como mulher, como mulher que trabalha em razão das mulheres, como ser social e ser humano….

A imagem ao lado é fofa, traz uma situação que seria ideal e tudo de bom. A gente sabe que precisa se amar, se respeitar, ser feliz quando e quanto conseguir, aceitar aquilo que não pode ser mudado: e por que então muitas de nós ainda acham que são obrigadas a aceitar situações abusivas? Por que nos permitimos sofrer tanto, seja em razão dx namoradx, dx filhx, de nós mesmas, que nos cobramos ser as super em tudo? A quem queremos provar algo? Precisamos?
Não é fácil se amar, quando a todo momento (seja pela mídia convencional, seja pelo facebook e sua grande fábrica de modelos, cientistas, sociólogos, psicólogos…) somos sugestionadas a achar que não podemos ser felizes. Ficamos mal quando caímos na cilada de nos compararmos com aquela que já casou / que já teve sua prole / que adquiriu a casa própria / que se encontrou profissionalmente / que consegue ser linda dentro dos padrões oficiais / que já viajou o mundo / tudo isso junto ou só um pouco, fica às vezes uma sensação de incompletude… Não tô falando aqui de inveja: mas na construção de um padrão de felicidade e sucesso.
Não adianta termos conquistas cada vez mais significativas no âmbito dos direitos civis. Não adianta termos finalmente a tipificação de condutas de violência contra a mulher como criminosas. Nada adianta enquanto a gente não for capaz de olhar para dentro, encarar as belezas e os horrores de ser quem a gente é: acredito que assim a gente consiga descobrir, afinal, quais as nossas próprias medidas de beleza, felicidade, sucesso, realização. Isso é constante, é cíclico; estabiliza, entra em crise, destrói, reconstrói….
Venho falando às mulheres, há tempo, sobre a autovalorização e o empoderamento através das rotinas de beleza. Para quem não conhece / não entende meu trabalho, isso pode ser confundido com futilidade e exibicionismo. O que busco desde sempre é a desmistificação da Beleza, a sua subversão, a sua reinvenção. Quando a mulher para de olhar pras outras, pras bundas das outras, pras roupas das outras, pras vidas das outras…. e passa a olhar para si no espelho, para as suas formas, para os seus cabelos, para sua própria vida, para os próprios desafios, para o que precisa aprender e melhorar; quando a mulher para de dar ênfase demasiada a tudo o que vem do outro, seja comportamentos abusivos, seja padrões que diferem daquilo em que acredita ou que são inatingíveis dentro de seu contexto biológico-social: gente, quando a mulher passa a se enxergar, também adquire condições de parar de se pautar pela opinião do outro, pela sua aceitação, pelo seu amor. Sua beleza é esquisita? Ainda assim é uma beleza. Sua família é problemática? Ainda assim é a sua família. Seu equilíbrio emocional é ou está frágil? Ainda assim ele é todo seu. É lindo demais participar disso, porque eu também vivo os mesmos dramas no meu dia a dia. Atuando como uma facilitadora do processo de outras, fornecendo apenas uma ferramenta dentre outras tantas que existem, fortaleço-me muito como mulher e como ser humano.
Para muito além dos estereótipos onde nos coloquem ou nos coloquemos, precisamos de entendimento sobre o que é o feminino. Que energia é essa? Não se trata de rótulos, de falar de sensibilidade, de vaidade, de luta, de sina em se preocupar, etc. etc. etc. Não são prerrogativas femininas isso tudo, todo ser humano é ou pode ser sensível, vaidoso, guerreiro, preocupado. Não estamos definindo o feminino, continuamos estereotipando. A luta pela igualdade de direito civil não pode jamais ser confundida com busca por igualdade em sentido genérico, porque homens e mulheres nunca serão iguais.
Deixo esta pergunta como reflexão: o que representa o feminino para você? Como esta energia lhe toca? Para mim, tem tudo a ver com o potencial de transformação e regeneração, bem como o de criação. Ao menos dentro da minha trajetória pessoal é isso que mais me mobiliza. Talvez algum dia eu me motive a escrever sobre a energia masculina, que também compõe todos nós (e em mim talvez toque mais profundamente do que a própria energia feminina, ainda estou aprendendo a lidar). Precisamos questionar os discursos sexistas, desvincular o que sabemos sobre feminino e masculino da tradicional associação com gênero, sexo biológico e papéis socialmente construídos. Precisamos de entendimento. Precisamos saber quem somos.
Desejo um dia espetacular a todas as mulheres e a toda a humanidade: que todos nos deixemos ser tocados pela energia e pelos poderes do feminino!

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